Reconciliação
A paixão traz a dor! — Quem é que acalma
Coração em angústia que sofreu perda tal?
As horas fugidias — para onde é que voaram?
O que há de mais belo em vão te coube em sorte!
Turbado está o espírito, o agir emaranhado;
O mundo sublime — como foge aos sentidos!
Mas eis, com asas de anjo, surge a música,
Entrelaça aos milhões os sons aos sons
Pra varar, lado a lado, a alma humana
E de todo a afogar em eterna beleza:
Marejado o olhar, na mais alta saudade
Sente o preço divino dos sons e o das lágrimas.
E assim aliviado, nota em breve o coração
Que vive ainda e pulsa e quer pulsar,
Pra ofertar-se de vontade própria e livre
De pura gratidão pela dádiva magnânima.
Sentiu-se então — oh! pudesse durar sempre! —
A ventura dobrada da música e do amor.
Johann Wolfgang von Goethe
Alemanha
Tradução de Paulo Quintela
domingo, 16 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
Momentos de Poesia - Velimir Khlebnikov
A Encantação Pelo Riso
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Velimir Khlebnikov
Rússia
Tradução de Haroldo de Campos
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Velimir Khlebnikov
Rússia
Tradução de Haroldo de Campos
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Momentos de Poesia
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Momentos de Poesia - Almeida Garrett
Não te amo
Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
E eu n’alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Almeida Garrett
Portugal
Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
E eu n’alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Almeida Garrett
Portugal
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Momentos de Poesia
Mês de África na FLUL

No mês de África na FLUL estão incluídas duas exposições a ter lugar na Biblioteca, até ao final de Maio.
Exposição Bibliográfica de Autores Africanos de Língua Portuguesa
Olhar África, por Saul Carvalho (Exposição Fotográfica)
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Conferências,
Eventos,
Exposições
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Momentos de Poesia - Alexandre O'Neill
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O’Neill
Portugal
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O’Neill
Portugal
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Momentos de Poesia
terça-feira, 11 de maio de 2010
Momentos de Poesia - Paul Valéry
Em Agosto
Acomodar-se às coisas: aceitar
o formato de agosto – o vir do vento,
esta chuva que cai sem se cansar
e a experiência opressiva do ar cinzento.
Não forçar os limites, não tentar
ultrapassar a curva do momento;
não querer outra cor, outro lugar,
outro céu, outra fome, outro tormento. –
Ficar aqui, somente, esclarecido
pela justiça simples do possível,
que torna suave a rosa antes do olvido:
cumprindo uma tarefa que convém
e suportando o gume do sensível,
que arde em promessas sob a luz-ninguém
Paul Valéry
França
Acomodar-se às coisas: aceitar
o formato de agosto – o vir do vento,
esta chuva que cai sem se cansar
e a experiência opressiva do ar cinzento.
Não forçar os limites, não tentar
ultrapassar a curva do momento;
não querer outra cor, outro lugar,
outro céu, outra fome, outro tormento. –
Ficar aqui, somente, esclarecido
pela justiça simples do possível,
que torna suave a rosa antes do olvido:
cumprindo uma tarefa que convém
e suportando o gume do sensível,
que arde em promessas sob a luz-ninguém
Paul Valéry
França
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
Momentos de Poesia - William Blake
Uma Imagem Divina
Crueldade tem Humano Coração,
E tem a Intolerância Humano Rosto;
O Terror a Divina Humana Forma,
O Secretismo Humano Traje posto.
O Humano Traje é Ferro forjado,
A Humana Forma, Forja incendiada,
O Humano Rosto, Fornalha bem selada,
Humano Coração, Abismo seu Esfaimado.
William Blake
Inglaterra
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
Crueldade tem Humano Coração,
E tem a Intolerância Humano Rosto;
O Terror a Divina Humana Forma,
O Secretismo Humano Traje posto.
O Humano Traje é Ferro forjado,
A Humana Forma, Forja incendiada,
O Humano Rosto, Fornalha bem selada,
Humano Coração, Abismo seu Esfaimado.
William Blake
Inglaterra
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
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sexta-feira, 7 de maio de 2010
A Arte do Leitor - Junta-te a nós!
Queres ver os teus textos publicados no blogue da Biblioteca?
Contribui com poemas, recensões críticas aos últimos concertos e peças de teatro a que assististe, comenta o teu livro e o teu filme preferidos, fala-nos sobre as tuas bandas favoritas!
Podes enviar também trabalhos de pintura (tradicional ou digital), fotografia, escultura ou qualquer outra forma de arte, desde que passível de ser publicada no blogue.
Se quiseres, podes até sugerir poemas ou pequenos contos de autores nacionais ou internacionais, mais ou menos conhecidos!
Participa, esperamos o teu contributo!
Envia as tuas obras para bib.dif.cultural@gmail.com
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Podes enviar também trabalhos de pintura (tradicional ou digital), fotografia, escultura ou qualquer outra forma de arte, desde que passível de ser publicada no blogue.
Se quiseres, podes até sugerir poemas ou pequenos contos de autores nacionais ou internacionais, mais ou menos conhecidos!
Participa, esperamos o teu contributo!
Envia as tuas obras para bib.dif.cultural@gmail.com
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A Arte do Leitor
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 2010 - António Gedeão
Soneto
Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.
Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.
Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.
E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.
António Gedeão
Portugal
Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.
Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.
Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.
E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.
António Gedeão
Portugal
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 2010 - Cesário Verde
Lágrimas
Ela chorava muito e muito, aos cantos,
Frenética, com gestos desabridos;
Nos cabelos, em ânsias desprendidos
Brilhavam como pérolas os prantos.
Ele, o amante, sereno como os santos,
Deitado no sofá, pés aquecidos,
Ao sentir-lhe os soluços consumidos,
Sorria-se cantando alegres cantos.
E dizia-lhe então, de olhos enxutos:
- "Tu pareces nascida da rajada,
"Tens despeitos raivosos, resolutos:
"Chora, chora, mulher arrenegada;
"Lagrimeja por esses aquedutos...
-"Quero um banho tomar de água salgada."
Cesário Verde
Portugal
Ela chorava muito e muito, aos cantos,
Frenética, com gestos desabridos;
Nos cabelos, em ânsias desprendidos
Brilhavam como pérolas os prantos.
Ele, o amante, sereno como os santos,
Deitado no sofá, pés aquecidos,
Ao sentir-lhe os soluços consumidos,
Sorria-se cantando alegres cantos.
E dizia-lhe então, de olhos enxutos:
- "Tu pareces nascida da rajada,
"Tens despeitos raivosos, resolutos:
"Chora, chora, mulher arrenegada;
"Lagrimeja por esses aquedutos...
-"Quero um banho tomar de água salgada."
Cesário Verde
Portugal
terça-feira, 4 de maio de 2010
Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 2010 - Cervantes
Bailan las gitanas
Bailan las gitanas,
míralas el rey;
la reina, con celos,
mándalas prender.
Por Pascua de Reyes
hicieron al reyun baile gitano
Belica e Inés.
Turbada Belica,
cayó junto al rey,
y el rey la levanta
de puro cortés;
mas como es Belilla
de tan linda tez,
la reyna, celosa,
mándalas prender.
Cervantes
Espanha
Bailan las gitanas,
míralas el rey;
la reina, con celos,
mándalas prender.
Por Pascua de Reyes
hicieron al reyun baile gitano
Belica e Inés.
Turbada Belica,
cayó junto al rey,
y el rey la levanta
de puro cortés;
mas como es Belilla
de tan linda tez,
la reyna, celosa,
mándalas prender.
Cervantes
Espanha
sábado, 1 de maio de 2010
Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 2010 - Eugénio de Andrade
Urgentemente
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Eugénio de Andrade
Portugal
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Eugénio de Andrade
Portugal
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